domingo, 23 de agosto de 2015

Gases.

O barulho mental, gases. O estômago suspenso, a respiração entrecortada - assim passei o dia. 
Ouço o barulho das velhas caixas de recordações se rebentando nas profundezas. O oceano de memórias, de desejos, de loucuras cegas a ferver meu espírito, mas não os sei. Não posso sabê-los.
Monstros se agitam e me falta a respiração, me dão gases e constipação. Estou doente outra vez. 
Doente de barulho mental, gases, soluços. 
Se posso predizer, vejo dias agonizantes e ignorantes dos arredores. Vejo busca cega por distrações, o desespero de não querer saber. Desistências, sentenças, consequencias difíceis que terei de lidar na brevidade. 
Será que dessa vez saberei parar e sentir? Saberei sentar e deixar? Saberei deixar-me saber? 
Saberei calar o meu barulho? 

O que os olhos vêem, o coração não mente.

Usando palavras não-minhas vou tecendo uma historia de retalhos que conte meus insucessos. 
Porque perspectiva é ferramenta poderosa e ser vítima é sempre mais fácil.
Vejo o mundo em múltiplas óticas que não sei como compartilhar.
Vejo amores dissolvidos mesmo antes de qualquer enlaçar. Vejo a vida se esforçando para encontrar passagem, nas veias da cidade.
Vejo sorrisos maltratados, rostos restaurados de sorrisos desenhados, tão falsos e dissimulados quanto qualquer verdade contada.
Porque verdade sentida é diferente.
Vejo as poças de água nas calçadas esperando ser pisadas por algum sujeito que há de maldizê-las.  Vejo a solidão em cada janela fechada, de cada cubículo amontoado que guarda fielmente as angústias de seus moradores.
Janelas suadas, paredes molhadas, alguém exagera na calefação. Alguém sente mais frio do que deveria, alguém precisa de amor. Quem não?
Vejo nuvens carregadas, pesadas, fartas e desistentes. Passam chorando, derramando lamúrias que ninguém há de ouvir.
Vejo tristezas negras desenhando sombras nos rostos alheios, que se escondem vergonhosos da chuva, da tristeza melancólica que banha a cidade, debaixo de seus vulneráveis guarda-chuvas. Vejo crianças e jovens senhoras, homens e mulheres que não se vêem. Vejo a ordem no caos permanente, das vidas da gente, que se preocupa sem precisar.
Porque preocupação precisa de algo concreto, não é certo?
Vejo as árvores secas, esguias, esforçando-se por entre os fios querendo fugir do concreto que as rodeiam. Vejo pássaros cruzarem tristes o céu que se escurece, o violeta último antes das estrelas. 
É chegada a hora do retiro. É bem-vinda a hora do encontro com o desconhecido protegido pelas sombras.
Tudo tão fugaz como qualquer ruído que não insiste numa cidade triste.

Vice-era.

Um momento de distração e minhas vísceras escorrem soltas pelo emaranhado de pessoas que só querem amar.
O movimento visceral de tripas que se enlaçam vorazes em busca de um lote de qualquer coisa é assustador.
Não há palavra para o que víscera deseja, porque palavra é coisa outra de outra parte do quem somos. 
Visceral e fantástico movimento que só à dança pode pertencer. O rito, o mito, o desejo ensandecido acha passagem no sem sentido. 
Vivo a loucura do que é anterior a mim. Vivo a indecência do meu prazer pagando culpas em parcelas. 
Tripas, vísceras, vergonha, culpa e dívidas. Reencontrei a vida no sem sentido, onde não carece de qualquer palavra. 

Vasilhames

O ar que você expira tem cheiro de amor de homem. Você não sabe porque só eu sei, porque só eu sinto você assim, como meu homem. 
Ainda que só por uma noite, mesmo não te conhecendo eu me permito amar um pouco e intensamente. 
Belos cílios você tem, combina com sua barba fechada e castanha. A pele do seu rosto é tão macia, seu corpo tão quente. Eu poderia te amar tão verdadeiramente! É uma pena que eu não lembre nem ao menos o seu nome. 
Meu corpo lembrará do seu toque, sua língua morna desenhou maravilhas na minha pele e as guardarei sempre. Se um dia voltar eu terei prazer em mostrar o amor que você rabiscou.

A madrugada chega ao fim, anunciam os pássaros. Você dorme tão pesado, tão pacífico que só quero pertencer ao seu amor e viver a paz do seu sono, com você.
Daqui a pouco você acordará descansado, relaxado e satisfeito. Talvez queira ser artista uma vez mais. Ou talvez queira ir embora, voltar ao velho conhecido lar da rotina.
Só me cabe fingir, que durmo, que não me importo, que não me machuco, que não quero mais. 
Sorrindo te abrirei a porta essa manhã. Por agora, só quero ser o parasita incógnito que se alimenta do seu calor.