O motivo da angústia que o acometia era justamente a sua irresponsabilidade. Pois jamais conseguira ser completamente responsável consigo e com os outros. Passou uma vida distribuindo desculpas, mentindo e tentando safar-se do título de cretino tão fortemente atribuído a sua pessoa. Nunca fora pontual em nada, nunca dera o melhor de si em nada e nunca se dispusera a tais condições. Mas simplesmente por não conseguir efetivar o seu desejo de ser melhor. Era desobediente, tanto que desobedecia até mesmo a si e encontrava sempre formas de enganar-se, trair-se; o fazia deliberadamente também às outras pessoas. Chegava a ser cômico, às vezes, essa sua estupidez.
Neste momento, enquanto baforava aquela fumaça tóxica, pensava na sua vida. Via-se obrigado a isso – efeito causado pelos últimos dias do ano. Riu-se quando constatou que ainda não havia concluído nada efetivamente em seus quase vinte anos de vida. Mesmo seus poucos diplomas não poderiam contrariar tal constatação, afinal todos sabiam sob quais circunstancias os havia obtido. Nunca fora capaz de relacionar-se de verdade com nenhum de seus amantes. Eram apenas amantes. E apesar de haver desejado profundamente que pelo menos um deles, qualquer um, houvesse de fato se tornado seu parceiro, namorado, “amigo colorido”, ou qualquer outro desses rótulos que se costuma atribuir às formas de relacionamento entre duas pessoas, nunca fora de fato capaz, talvez, de fazê-los prenderem-se a ele. Tudo estava uma bagunça. Riu novamente agora ao constatar uma nova infelicidade, uma sentença que resumia sua existência ou quase-existência. Nunca havia de fato vivido. Sempre se alimentou das quase- experiências, das quase-conquistas, das quase-verdades e das quase-mentiras. Estava acostumado e talvez condicionado a isso. Sua vida se resumia em um grande e escancarado “quase”. Porém soubesse que não existissem meios céus, nem meias ondas, meias árvores e nem meios buracos. Ou existe, ou não existe. Regra simples e clara. Sua vida, porém, era considerada uma meia vida, ou seja, estava morto e não sabia (!).
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